Tecnologia na limpeza

 

Pouco mais de cem anos nos separam do primeiro detergente sintético criado na história. Em 1916, o pesquisador alemão Fritz Gunther desenvolvia a primeira fórmula de “agente de atividade superficial”, o também chamado surfactante ou tensoativo. O primeiro aspirador de pó a chegar ao Brasil – o Lux – aportava por aqui em 1912.

Mesmo nas décadas seguintes, com a introdução das enceradeiras ou das multifuncionais, os equipamentos não demandavam tanto conhecimento para que o colaborador conseguisse operá-los. Eram relativamente simples, a maioria deles puramente mecânica; nada próximo da realidade atual repleta de smartphones, informações em nuvem ou microchips.

Por isso, é correto afirmar que na última década um verdadeiro tsunami tecnológico atingiu empresas de todos os segmentos – inclusive na Limpeza Profissional. E se alguém ainda acha que basta ao auxiliar de limpeza saber como usar o mop ou operar um aspirador, não poderia estar mais enganado.

Nesta série especial sobre a evolução da limpeza, a Higiplus aborda as mudanças ocorridas no setor em função da tecnologia, como ela se relaciona ao quesito treinamento e qual a nova abordagem do setor – muito mais ligada ao bem-estar e à saúde.

 

Tudo é tecnologia; a limpeza profissional também

Mas, então, limpeza não é apenas tirar o pó ou passar um rodo no chão? Obviamente não. Há muito tempo a Limpeza está além desta concepção e oferece, nos produtos, equipamentos e processos, soluções ligadas à tecnologia.

Um dos ambientes onde essa realidade é mais latente é o hospitalar. “Dentro de um ambiente de saúde, existem tipos de limpeza que são categorizados para utilizar técnicas específicas, maquinários que aumentam a produtividade e protocolos de desinfecção bem definidos”, aponta Katia Assis, Coordenadora de Operações do HCor, em São Paulo.

“Tivemos recentemente um case no hospital de aplicação do método de limpeza No Touch, no qual foi empregada a tecnologia de vaporização, com um produto cujo princípio ativo possui Peróxido de Hidrogênio e Cátions de Prata. O uso desta tecnologia nos trouxe ganhos visíveis, não só na eliminação praticamente total da carga microbiológica do ambiente, mas no aumento da produtividade no giro de leito. É também por estes motivos que nosso setor sempre busca inovações na limpeza”, completa.

Na luta por diferenciais, os fornecedores passam por atualizações constantes, como destaca o Supervisor Operacional de uma limpadora, Josimar Pinheiro Santana. “A velocidade com que as informações transitam nos tempos atuais nos coloca a par e faz discutir, através de brainstorming (dinâmica de grupo), todas as novidades em treinamentos e aprimoramento”. E os números comprovam a eficácia de investir na excelência. “Levantamentos mostram que, em alguns processos, a simples substituição por produtos mais tecnológicos e adequados, além de melhora em resultados, pode levar a reduções de custo de até 80%”, revela o Diretor da Câmara de Químicos da Abralimp, Miguel Sinkunas.

Uma forma prática de entender como a limpeza abraçou a tecnologia está nas novidades que rondam a rotina dos trabalhadores. “Nosso sistema de check list, via QR CODE, disponível em nossos clientes, necessita de um certo domínio tecnológico: saber direcionar o smartphone, responder a perguntas específicas, tirar fotos das áreas avaliadas, salvar e enviar para a nuvem. Tudo isso exige, claro, uma nova disposição do agente de Limpeza ao mundo digital”, destaca Marcelo Ferreira, Diretor de Marketing e P&D de uma franqueadora de serviços de limpeza comercial.

As empresas têm investido cada vez mais em inovação, e a busca por parceiros externos geradores de novas tecnologias faz parte da estratégia, para somar expertises e entregar serviços de mais qualidade e eficiência. “Nosso programa Accelerator, por exemplo, é uma iniciativa global de aceleração lançada no Brasil em outubro de 2019”, explica o Diretor de Digital Inovação de uma prestadora de serviços, Rubenson Chaves. “O programa busca startups brasileiras inovadoras que usam tecnologia de ponta e apresentam soluções para melhorar a experiência de nossos clientes, em especial nos quesitos bem-estar e qualidade de vida”.

 

Capacitação leva mais longe

Ao longo dos anos, os equipamentos de limpeza atingiram um novo patamar digital de controles e robótica. A evolução tecnológica exige um novo perfil de profissional que deve ser treinado e reciclado constantemente para aplicar de forma correta os novos recursos que, por sua vez, não param de evoluir.

“O maior desafio é elevar o potencial de nossos colaboradores. Por isso, levamos o lema na ponta da faca: ‘Sem uma equipe bem treinada, não há serviço bem feito; se o serviço não é bem feito, não há cliente satisfeito’”, diz o Diretor de Marketing e P&D, Marcelo Ferreira. “Assim, oferecemos treinamentos constantes – a cada 15 dias – diretamente no ‘campo de batalha’, ou seja, no espaço físico do cliente onde o serviço é executado”.

Uma oportunidade encontrada por uma prestadora foi criar sua própria universidade. “Temos uma cultura de treinamento muito forte. Em 2016, lançamos a Universidade Corporativa do Grupo (UCVS), que tem o EAD como principal ferramenta para atingir os mais de 42 mil colaboradores no Brasil”, explica o Gerente de Recursos Humanos, Fernando Battestin. “Investimos anualmente mais de 2 milhões de reais na UCVS com EAD, cursos internos e externos. Hoje, atendemos mais de 3 mil líderes em todo Brasil e, só em 2019, esses líderes já foram multiplicadores de mais de 350 mil horas de treinamento em nossos contratos”.

Outro braço forte está nas entidades do setor, que têm como missão capacitar e desenvolver o mercado profissional. É o caso da Abecam – Associação Brasileira das Empresas de Conservação Ambiental.

“Desde que começamos o trabalho de treinamentos, destacamos a importância das modernizações que acontecem na Limpeza”, aponta Silvio Guerreiro, Coordenador de Cursos Técnicos da Abecam. “Inovações não param de surgir. Hoje, pode ser um produto químico revolucionário; amanhã, uma máquina que limpa vidros sozinha; depois, sabe-se lá o que virá. Por isso, é primordial o estímulo ao uso dessas novas ferramentas”.

Vale lembrar que treinamento não é custo, é investimento. “Entendemos que a participação conjunta das empresas com as entidades de classe e associações, como é o caso da Abralimp, é essencial para fomentar o avanço profissional do setor”, enfatiza o Diretor Geral de uma fabricante de equipamentos, Antonio Luis Francisco (PJ).

 

Sem limpeza = sem saúde

O trabalho da Limpeza Profissional é condição indispensável para garantir a manutenção da saúde. Se, por um lado, ambientes limpos e livres de patógenos representam o aumento da expectativa de vida dos seres humanos, por outro lado, sem limpeza não há segurança para a saúde, seja mental ou física.

No mercado hoteleiro, a limpeza é um dos fundamentos. Todo hóspede quer chegar num quarto com uma boa cama, um bom chuveiro e, evidentemente, num quarto limpo, que tenha um ambiente agradável e sadio.

“Temos uma preocupação muito forte de usar os produtos certos, qualificar as camareiras, as supervisoras de andares e as governantas, para estarmos preparados para atender o mercado de uma forma bem consistente”, ressalta Bruno Omori, Presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Estado de SP (Abih-SP) e que conta com cerca de 30 hotéis sob sua gestão.

E a preocupação não é só com a higienização da cama, do chão ou do banheiro, mas também com a qualidade do ar. “Hoje, há legislações em relação à refrigeração e à limpeza dos aparelhos de ar condicionado, além da preocupação com a eliminação de bactérias. Quando unimos saúde e bem-estar, evidentemente que ‘um quarto limpo’ significa ‘um quarto saudável’”, finaliza.

 

Sujeira mata a produtividade

A qualidade do ar, inclusive, é um tema que vem ganhando importância nesta equação, em especial no que diz respeito à produtividade nos ambientes de trabalho.

Um estudo recém-lançado pela Future Workplace, intitulado The Workplace Wellness Study (Estudo sobre Bem-estar no Local de Trabalho), traz os seguintes dados: mais de 67% dos 1.601 funcionários norte-americanos pesquisados ​​disseram ser mais produtivos em locais que promovem um ambiente saudável.

Por outro lado, um terço disse perder pelo menos uma hora de produtividade diária devido a ambientes de escritório que não dão suporte à sua saúde. Os dados vão além: Quase metade dos entrevistados (44%) disse que a má qualidade do ar os faz sentir sono durante o dia de trabalho e 28% relataram que a baixa qualidade do ar cria sintomas como coceira, lacrimejamento ou irritação na garganta.

“Qualquer ambiente sujo tende a desenvolver foco de doenças respiratórias e alérgicas que afetam a saúde do colaborador, causam desmotivação e recorrentes afastamentos”, destaca o Coordenador de Planejamento Comercial de uma prestadora de serviços, Marcelo Aldeia. “Por isso, os benefícios da limpeza vão além da aparência e favorecem a própria produtividade da organização, aumentando a qualidade de vida dos profissionais que passam a maior parte do seu dia desempenhando funções”.

Gessilandy Lopes, Gestor Operacional de prestadora, também apoia sua opinião em números: “Dados apontam para uma melhora de 40% na produtividade das fábricas que são adequadamente limpas. Já em escritórios, o crescimento na produtividade varia entre 2% e 16%. As vendas também são afetadas pela higiene no ambiente. Em um supermercado, por exemplo, estima-se que locais bem limpos garantam até 7% mais vendas por metro quadrado”.

 

Caçadores de Monstros

Está claro que a higienização do local de trabalho influencia a produtividade dos funcionários. Mas, em locais de grande circulação de público, ela pode ir além e se transformar em ideias lúdicas, que ajudem a compreender e valorizar de maneira ampla o ato da limpeza.

Para proporcionar um ambiente mais humanizado nas alas infantis de hospitais, uma prestadora de serviços criou o projeto “Caçadores de Monstros”, uma iniciativa inédita para combater a infecção hospitalar.

“Para entrar na imaginação das crianças, nossa equipe de limpeza deixou de lado os uniformes e carrinhos tradicionais, e se transformaram em “caçadores de monstros”: Bacterino, Poeiruda, Germinha e Sujeirito são os monstrinhos estampados nos uniformes e nos carrinhos, e que precisam ser combatidos”, explica a Gerente de Plataforma Técnica, Luciana Moura.

O objetivo é que esses profissionais sejam vistos como agentes que trabalham para diminuir os riscos de infecção hospitalar, já que estão entre os responsáveis por tornar o ambiente mais seguro. O projeto piloto, desenvolvido de maneira personalizada para o cliente Sabará Hospital Infantil, teve resultados surpreendentes. “Os colaboradores se sentiram extraordinários com os novos uniformes e se engajaram na caça aos monstrinhos. Após uma semana de implementação, também foram notáveis os olhares curiosos dos pequenos pacientes para os novos ‘caçadores’”, completa Luciana.

A cultura da inovação ainda é vista como um processo que exige alto investimento e dedicação integral das empresas; mas claramente trata-se de um caminho sem volta. A cada dia surgirão novas tecnologias, novos desafios e movimentos em busca da agilidade e otimização dos processos. E aqueles que não aderirem e se capacitarem ficarão para trás.

Nesta corrida rumo ao futuro, o que já se pode afirmar – sem sombra de dúvida – é que a Limpeza Profissional arrancou na frente e vem dando um grande exemplo.

 

Fonte: Associação Brasileira do Mercado de Limpeza Profissional – ABRALIMP.

[Participaram desta reportagem: Abecam, Abih, Getafe, HCor, JactoClean, Jani-King Brasil, Sodexo On-site Brasil, Verzani & Sandrini].

 

Fotos: ABRALIMP, Pixabay, Sodexo On-site Brasil.