Nos últimos anos, o mercado de Limpeza Profissional passou por profundas mudanças: da filosofia de limpar pela “aparência” até o conceito de limpeza para a “saúde”. Agora, com o cenário da Covid, surgiram novas exigências, que vão do treinamento e certificação dos trabalhadores, ou da conformidade com padrões de qualidade, até o entendimento do real valor da limpeza.

Para falar sobre as oportunidades e desafios desse momento ímpar, a ISSA realizou em abril o seminário online “Como a Automação Ajuda a Responder às Demandas da Pandemia”, com a participação dos especialistas Mark Warner, gerente de Educação da ISSA; Kass Dawson, chefe de estratégia de uma empresa de automação; e Jon Hill, especialista em implementação de robótica.

A revista Higiplus acompanhou o seminário e traz com exclusividade o que foi falado pelos palestrantes sobre o “novo normal” e como a automação pode ajudar na limpeza e na saúde humana em tempos de coronavírus.

Covid: buscando o verdadeiro valor da limpeza

Como medir o retorno de um investimento em Limpeza? Como saber que não se trata apenas de uma mera despesa? De acordo com estudos realizados nos Estados Unidos, a limpeza não só possui um excelente retorno sobre o investimento, como também é capaz de reduzir custos, e ainda protege a saúde das pessoas. É o que defendeu o especialista em prevenção de infecções Mark Warner: “A utilização dos protocolos corretos de limpeza ajuda a diminuir o número de superfícies contaminadas por vírus em 62%, impacta o absenteísmo de estudantes em 46% e combate a propagação de Influenza em até 80%”.

Mas não é só isso. A aplicação correta (ou não) dos protocolos de limpeza pode fazer a diferença entre espalhar doenças ou garantir a desinfecção de um ambiente. Basta lembrar que, nos últimos anos, emergiram mais de vinte novas doenças infecciosas como é o caso do Ebola, da SARS, MERS e agora da Covid-19. “Foram inúmeras as oportunidades que tivemos de aprender como esses surtos operavam, para conseguirmos lidar melhor com o que está acontecendo agora”, apontou Mark. “Ocorre que, conforme já documentado pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), as pessoas simplesmente não aprenderam a limpar adequadamente. E agora o risco é que pessoas mal capacitadas para a limpeza acabem espalhando a doença”.

Mark destacou as maçanetas, botões de elevador e corrimãos como os principais pontos críticos de proliferação de doenças, além de computadores, mesas e outras superfícies, que também possuem uma contagem alta de materiais infecciosos. Mas destacou que é o chão o grande vilão, já que representa o maior reservatório de organismos patogênicos de uma edificação, funcionando como uma verdadeira rodovia para os micro-organismos.

“Pense em quando você pega uma caneta do chão e a coloca em cima da mesa. Todos esses contatos incidentais com objetos são tecnicamente chamados de fômites (objetos ou substâncias que, embora inanimados, são capazes de absorver, reter e transportar organismos infecciosos de um indivíduo a outro). Uma pessoa comum tem mais de 50 contatos incidentais com o chão por dia, através desses veículos secundários, como roupas, bolsas, malas, canetas caídas etc.”.

Mas, se o problema está em praticamente tudo o que tocamos, como evitar a proliferação e os problemas causados pela Covid-19? Com a limpeza adequada de pontos críticos e com o aumento das frequências. “Estudos mostram que a limpeza e o saneamento são mais afetados pela frequência do que por qualquer outro fator”, disse Mark. “Com a Covid, o que precisamos é de ‘limpeza extrema’”. O inimigo contra o qual estamos lutando é invisível e pode ser espalhado por pessoas que não sabem o que estão fazendo. O resultado final para nós, em todo o mundo, é a percepção de que é preciso praticar essa limpeza extrema. E tem que ser agora”.

Automação para responder às novas demandas

Pode parecer ficção científica, mas hoje a Limpeza Profissional já conta com robôs colaborativos (co-botics) desenvolvidos especificamente para trabalhar lado a lado com seres humanos; e eles podem auxiliar de forma impactante as demandas surgidas com a Covid-19.

“A Covid requer de todo o mundo uma limpeza profunda. Isso significa limpar mais, melhor e com mais frequência, e isso obriga os trabalhadores, obviamente, a trabalhar mais”, apontou o especialista em automação, Kass Dawson. “O que a automação faz é reduzir essa pressão. Ela detecta quais são as tarefas repetitivas e fornece soluções para automatizá-las”.

Além do auxílio no aumento de frequências, a robótica também vem sendo vista como uma aliada nas necessidades de distanciamento social já que permite, por exemplo, reduzir a presença humana num determinado ambiente. E ainda é capaz de colocar à disposição todos os dados relativos ao serviço: data, local, frequência e quão efetiva foi a higienização. Isto é fundamental para comprovar, tanto ao cliente quanto a seus usuários, que o ambiente foi efetivamente limpo e está seguro para a presença humana”.

“O fato é que, em função da pandemia, a automação ganhou espaço na limpeza e, embora ainda enfrente obstáculos, como a lacuna entre o desenvolvimento tecnológico e o crescimento dos negócios, nosso objetivo é desenvolver robôs que sejam suficientemente ágeis e dinâmicos e, assim, modificar os comportamentos e os ambiente em relação à limpeza”.

Dawson apontou ainda para outro quesito fundamental num período de quarenta e pandemia: a qualidade do ar – especialmente agora que as pessoas estão passando mais de 90% de seu tempo em ambientes fechados. “A qualidade do ar de ambientes internos é cinco vezes mais poluída que dos locais externos”, apontou. “Como indústria da Limpeza podemos ajudar, pois sabemos que, quando a qualidade do ar é boa, as respostas cognitivas das pessoas melhoram em até 61%, além de impactar a propagação de germes”.

Por fim, Dawson ressaltou as vantagens dos co-botics na economia de tempo e na otimização da mão-de-obra da limpeza, usando como exemplo aspiradores de pó autônomos. “Por meio de softwares, pudemos calcular que todos os robôs que temos atualmente no mundo já somaram mais de 250.000 horas de trabalho economizadas por mês. Além de confirmar a efetividade da limpeza no fim do dia, economias como essa permitem que as equipes de limpeza se concentrem em executar outras tarefas mais importantes, como a limpeza de áreas críticas”.

Unindo processos e automação

Para fechar o seminário, Jon Hill trouxe para a discussão a combinação dos dois temas anteriores: como associar os processos de limpeza à robótica. “A tecnologia inteligente está na indústria, e não vice-versa. Nossa forma de limpar muda de edifício para edifício, de acordo com uma série de fatores. É preciso unir os recursos, usar a tecnologia e combiná-la às atividades normais de limpeza para atingirmos nossos objetivos”.

Um dos principais pilares desta junção está em contar com fornecedores de confiança para otimizar a produtividade. “Trabalhamos com fornecedores de equipamentos que nos ajudam a entender como resolver os problemas que temos em mãos. À medida que crio um networking de pessoas com a mesma mentalidade, e trocamos informações diariamente, o resultado é que também aprimoramos nossos resultados diariamente. Afinal, são estes os serviços pelos quais nossos clientes nos contratam”.

Sobre equipamentos, ele ressaltou a importância de reconhecer que todos, robóticos ou não, têm seu lugar na limpeza. “Equipamentos com mochilas podem aumentar nossa produtividade, da mesma forma que robôs também podem – desde que cada um seja utilizado no local e hora certa”.

A discussão passou ainda por temas como padrões, capacitação, tecnologia e qualidade, e como estão interligados; bem como pela necessidade da mudança de cultura na limpeza para que a automação e a força de trabalho possam funcionar juntas.

Para finalizar, Jon destacou a importância de estar atento a fatores como a fadiga, seu impacto no estresse do colaborador e em como a automação pode aliviar este problema. “Toda Prestadora de Serviços sabe que limpeza é um trabalho árduo. Portanto, o que estamos fazendo é usar nossas ferramentas para otimizar não apenas a produtividade, mas também para reduzir isso”.

Vale ressaltar que automação não significa “retirar as pessoas e substituí-las por máquinas”, mas abrir a possibilidade para livrá-las de tarefas repetitivas e realocá-las em outras tarefas de maior importância. Na realidade brasileira, por enquanto, o custo associado da mecanização é alto, e algumas novidades ainda devem demorar certo tempo. Mas é fato: elas são o futuro, e não há como negar que estamos caminhando para isso.

Existe uma combinação sem precedentes de oportunidades e desafios para a Limpeza Profissional durante e no pós-pandemia. Alçado a um protagonismo nunca antes visto, o segmento precisa agora compreender as demandas que virão com o “novo normal” e abrir as portas para a mudança. O futuro começa a ser escrito hoje.

 

Fonte: ABRALIMP – Associação Brasileira do Mercado de Limpeza Profissional.

Foto: AFP PHOTO / NTU SINGAPORE.