Como as empresas do setor de limpeza profissional podem colaborar com a iniciativa

A produção e descarte de lixo potencialmente reciclável vem aumentando em todo o mundo. Somente no Brasil a quantidade de resíduos enviada a aterros controlados e lixões passa de 29 milhões de toneladas por ano, de acordo com dados da ABRELPE (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais).

Ainda segundo dados apurados em 2019, foram gerados no país 79 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos (RSU), sendo que a geração per capita ficou em 379,2 kg por ano. Diante disso, é importante repensar o descarte, já que ao serem depositados em terrenos a céu aberto, esses materiais estimulam a proliferação de doenças, além de poluir os lençóis freáticos.

Desde 2010, com a instituição da Lei 12.305, que estabelece a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), é possível promover a redução, reutilização, reciclagem e tratamento dos resíduos sólidos, além da destinação adequada de rejeitos – tudo aquilo que não pode ser reaproveitado e vai para aterros sanitários.

Mas é preciso engajamento dos setores público e privado para a correta destinação dos resíduos sólidos urbanos. E, de prático, o que pode ser feito pelas empresas da cadeia produtiva do mercado de limpeza profissional?

Guilherme Salla, diretor da Câmara de Sustentabilidade da Abralimp, enfatiza: “Nosso papel é fundamental em todo o processo, pois são nossos colaboradores que fazem a eventual separação, recolhimento e destinação dos resíduos. Por isso, nossa principal colaboração é com relação ao treinamento, orientação e execução da atividade, já que se trata do principal elo com a coleta seletiva”.

Luciana Dobuchak, diretora comercial da Ipel – associada Abralimp – diz: “Entendo que todos podem colaborar na separação de seus próprios rejeitos, nas suas áreas, assim como realizar campanhas de conscientização com seus clientes e seus colaboradores para disseminar a ideia da reciclagem e coleta seletiva”.

A executiva destaca ainda que também é possível atuar no desenvolvimento dos fornecedores para que estes tenham a premissa ambiental em seus valores. “Em nossa empresa, por exemplo, procuramos utilizar 100% – ou perto disso – de nossos rejeitos, de qualquer espécie, sempre primando pelo princípio dos 3R´s: reduzir, reutilizar, reciclar”.

Ela lista a adoção de insumos ecologicamente corretos para proporcionar um impacto positivo, seja em embalagens ou em qualquer tipo de material base para fabricação de produtos.

Caio Castro, gerente de marketing da EBEG, outra empresa associada Abralimp, acredita que a conscientização e a educação ambientais são pontos fundamentais. “Hoje em dia o problema não são os insumos e/ou embalagens utilizados no mercado de limpeza/químicos, mas o conhecimento adequado de como e onde descartá-los”, pontua.

Por isso, segundo ele, as empresas devem focar esforços nessa direção, começando pelo endomarketing com o objetivo de formar embaixadores que defenderão a causa. “Cartilhas, palestras e vídeos educativos são bons exemplos de materiais para serem distribuídos”, explica.

Educação ambiental

Guilherme Salla, diretor da Câmara de Sustentabilidade da Abralimp.

Justamente a orientação dos colaboradores é outro ponto lembrado por Salla para que seja feito um mapeamento do lixo gerado para detectar tipo, volume e destinação. “A coleta seletiva nasce no treinamento com o usuário final ou o operador daquele resíduo”, esclarece o executivo para acrescentar que a devida separação deve ser feita pelo próprio gerador.

Já para operações mais complexas como indústrias e hospitais, por exemplo, ele destaca a importância de se contar com o apoio de uma consultoria ou parceiro especializado.

Osmar Souza, supervisor de controle ambiental na Ipel, aponta que um dos pontos importantes para a implantação de coleta seletiva é a Educação Ambiental com o envolvimento de todos.

Elaboração de um plano de segregação de resíduos, parcerias com empresas especializadas na retirada dos resíduos, áreas com disponibilidade de separação, movimentação e armazenamento – quando necessário – são listadas pelo especialista.

Mas não há entraves para quem quer começar. “Existe muita bibliografia e material disponível na internet hoje em dia, de qualidade, de órgão confiáveis e com essa visão em sua filosofia. Entendo que a implantação pode ser gradual e não há necessidade de consultoria para o processo de implantação. Em casos mais específicos, como rejeito ou insumo que necessita de uma ação específica, pode-se buscar este apoio”, esclarece Luciana.

Castro enfatiza que muita coisa simples pode ser feita a partir da vontade e do prazer de ver o mundo funcionando de forma mais leve e melhor. Ele conta que em sua empresa foi formado um Comitê de Sustentabilidade para avaliação do cenário, discussão de pontos de interesse e ações definitivas.

“Este é um bom início para empresas de quaisquer portes. Além disso, enxergar a sustentabilidade e o meio ambiente como um assunto permanente dentro das políticas da empresa é fundamental”, ensina.

Mapeamento do lixo

Luciana Dobuchak, diretora comercial da Ipel.

Um dos pontos de maior dificuldade no processo, no entanto, é a identificação do tipo de resíduo, sua separação e gerenciamento. “Para isso é importante classificar a origem para entender e, sempre que possível, contar com um especialista”, explica Salla.

Outro empecilho é o espaço físico para a separação dos materiais para dar sequência ao processo, lembra Luciana, que aponta como uma opção a criação de logística de retirada dos resíduos com maior freqüência para evitar transtornos.

“Hoje existem empresas especializadas nesta coleta, podendo ceder/comodatar caçambas ou conteiners que fazem a coleta de maneira uniforme, ainda trazendo uma renda extra para quem está reciclando”, diz Luciana.

A dica, de acordo com ela, é começar aos poucos, estruturando passo a passo a iniciativa já que é preciso coordenação e planejamento para não cair em descrédito na visão dos usuários.

Osmar aproveita para salientar: “Conscientização! Entendemos que é importante, trabalhar a cultura de cada um, já que hoje é muito comum nas empresas a presença de colaboradores vindos de outros estados com culturas diferentes”.

Castro também concorda e indica que o engajamento é outro ponto de dificuldade. “Se as pessoas não se sentirem parte do processo e peça fundamental do resultado final, elas não o farão. E isso envolve desde o descarte simples de um papel na lixeira azul ou até mesmo apagar a luz ao sair de um ambiente”.

Para ele, a comunicação é parte estratégica no processo, principalmente no início. “É importante mostrar que atitudes que parecem solitárias fazem toda a diferença em uma organização, em um bairro, em uma cidade e assim por diante. Uma vez engajados e se portando como defensores de uma causa maior, começarão a construir um ‘exército verde’ que se multiplicará”, diz.

Logística reversa

Caio Castro, gerente de marketing da EBEG.

Parte importante do processo, o reaproveitamento dos insumos evidencia a prática da logística reversa. Desde a consolidação da PNRS o conjunto de procedimentos para recolher e dar encaminhamento pós-venda e pós-consumo para destinação correta e utilização de resíduos vem ganhando força.

Mas para que a iniciativa se consolide é preciso um esforço conjunto entre fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes para a implantação de uma responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos.

“Quando falamos especificamente do nosso segmento, temos muitas oportunidades a serem implantadas, como por exemplo, a reciclagem de produtos e embalagens plásticas, utilização correta de produtos concentrados para a implementação de economia circular e logística reversa”, atesta Salla.

Souza reforça que a medida é hoje um fator determinante para o desenvolvimento econômico e social. Luciana, por sua vez, acrescenta que vários insumos e embalagens podem ser reutilizados ou reciclados. Tudo dependerá do tipo de material que o mercado utiliza e sua finalidade.

“Existem, por exemplo, possibilidade de reutilização de caixas para picking de pedidos, ou aproveitamento para outro segmento”, conta Luciana, que diz ainda que muitas indústrias adotam como medida a reutilização de caixas de papelão apenas virando o lado para acondicionar produtos e despachar mercadorias. “Outro exemplo é fabricação de sacos de lixo que podem ser feitos de material reciclado”.

Ela aponta que na empresa onde trabalha todo o lodo gerado no final do processo produtivo é aproveitado como matéria-prima alternativa para fabricação de tijolos, telhas e blocos evitando o despejo em aterro sanitário.

“Buscaremos, ao máximo, negociar com empresas que também possuam esse mindset, para que a nossa entrega seja cada dia mais “verde” e com a mesma qualidade”, relata Castro, indicando o posicionamento também adotado pela empresa onde atua.

Adesão ao PNRS

Osmar Souza, supervisor de controle ambiental na Ipel.

Souza orienta que qualquer empresa, hoje, pode aderir à PNRS. “As companhias de porte grande ou médio, necessariamente, precisarão de uma Licença Ambiental e Cadastro Técnico Federal junto ao IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais)”.

O especialista segue esclarecendo que no caso das empresas de pequeno porte, que gerem resíduos, é possível se cadastrar junto ao IMA (Instituto de Meio Ambiente) de seu município ou estado.

“O cadastro no SinFAT (Sistema de Informações Ambientais) é simples e objetivo. Mas também é possível cadastrar-se no Controle e Movimentação de Resíduos e Rejeitos (MTR), também do IMA. Este último, possui um benefício no qual se gera um manifesto com todas as informações sobre o seu resíduo ou rejeito, quantidade gerada, e destino a ele dado. Vantagens: a emissão de uma declaração de destinação e um certificado de destinação, os quais contribuem em muito junto aos seus clientes e também as auditorias externas”, ensina Souza.

“O mundo está mudando de forma vertiginosa e as empresas terão que se adaptar a esta nova realidade. A internet deu voz a um número de consumidores que antes não eram vistos além de dados em fechamento de balanços financeiros. Hoje, eles têm voz, vez e gritam alto. E mesmo os que não gritam, agem com consciência ambiental”, lembra Castro.

Para ele, o primeiro passo é uma mudança de conceito para enxergar a preservação do meio ambiente como investimento com retorno em médio e longo prazos. “Pesquisas aqui mesmo no Brasil mostram que a redução de insumos – de matéria-prima a energia elétrica – ocasionada pela reutilização de embalagens, por exemplo, é significativa, sem contar a diminuição de resíduos poluentes”, atesta o executivo.

Mercado em ação

Castro segue pontuando que a coleta seletiva é um assunto muito conhecido, mas ainda pouco praticado por todos.  “Para ter sucesso na implantação de um projeto é importante ter planejamento, verificar e promover parcerias com fornecedores para reaproveitamento dos resíduos. É relevante, também, o treinamento periódico de educação ambiental para se ter uma equipe envolvida com a causa. E isso serve para as empresas do setor de limpeza profissional”.

Luciana é outra que acredita que a implantação de medidas para separação de resíduos, reutilização e redução do descarte, limpeza profissional, sustentabilidade, resíduos pnr, uso de materiais desnecessários é o início da iniciativa.

“Além disso, aderir a programas de logística reversa é uma boa maneira de garantir a utilização de insumos que são utilizados pelo consumidor final e são oriundos de nosso setor”, diz, para acrescentar: “estimular clientes, funcionários e toda cadeia ligada ao mercado com programas de conscientização, busca de métodos conjuntos são uma boa estratégia”, conclui ela.

Salla arremata: “entendo que o Setor de Limpeza Profissional pode sempre oferecer capacitação e treinamento ao seu cliente final, a fim de ajudar e apoiar toda a operação. O colaborador que presta serviço é o principal meio de multiplicar o conhecimento e garantir uma coleta correta e efetiva”.

 

 

 

 

Fonte: ABRALIMP.

Foto/Divulgação: ABRALIMP.