Pandemia destacou as oportunidades no setor

A pandemia impactou diretamente no setor de limpeza profissional, já que a percepção dos consumidores sobre higienização foi aguçada. Como a disseminação do vírus ocorre por contato indireto, tanto a eficiência de processos quanto a limpeza já não são atributos negociáveis, mas itens mandatórios para conferir saúde e segurança.

Atualmente, qualquer ponto de contato em um local público pode se tornar uma fonte de infecção, fator que destaca ainda mais a importância crucial da limpeza para o mundo todo.

Lavar as mãos com mais frequência e usar máscara são hábitos normalizados. Com isso, os questionamentos em torno da origem e da entrega dos produtos e serviços estão elevando os padrões de segurança.

Para se ter uma ideia, de acordo com dados divulgados pelo instituto Euromonitor International, empresa que pesquisa mercados globais e fornece análises de inteligência estratégica, esse cenário traz efeitos para os segmentos de limpeza e de produtos desinfetantes. Tanto que ambos deverão apresentar o dobro do crescimento registrado no período anterior à Covid-19.

A Nielsen, outra empresa responsável por coleta e medição de dados e informações, também apontou que, após a chegada da pandemia no Brasil, os consumidores adotaram novos hábitos de consumo que proporcionaram grande feito para o segmento.

Em resumo, a pandemia mudou os hábitos e percepção dos brasileiros em relação à limpeza. E isso impactou diretamente nas empresas prestadoras de serviço. Mas como elas estão aproveitando as oportunidades?

Na Maria Brasileira, rede de franquias especializada em prestação de serviços de limpeza e cuidados, que é associada à Abralimp, entre abril e junho de 2020 houve redução nas vendas de atendimentos residenciais.

“No pior momento da pandemia registramos uma queda de 73%, pois as pessoas estavam com receio de receber alguém em suas casas”, relembra o co-fundador José Eduardo Pirré Filho.

No entanto, as coisas começaram a melhorar no primeiro trimestre de 2021. “Houve um crescimento de 58% comparado ao mesmo período do ano passado no volume de faturamento”, comemora.

A explicação? Segundo Pirré, o mercado de limpeza apresenta potencial promissor. “As empresas podem atuar em diferentes nichos e também em modelos de negócio que tem como base a concorrência, o que ajuda a escalar os resultados”.

Empreender na pandemia

Juliana Segallio, consultora de negócios do Sebrae-SP.

Segundo Juliana Segallio, consultora de negócios do Sebrae-SP, o intuito de empreender deveria estar ligado – em teoria – à identificação de uma oportunidade no mercado.

“Entretanto, com o cenário social, econômico e a crise agravada pelas consequências da Covid-19, as pessoas empreendem cada vez mais por total necessidade e não por escolha. Neste caso sem planejamento, preparo, investimento ou riscos calculados, o empresário encara o mercado para subsistência e esse conjunto diminui as chances do novo negócio ser perene”.

Foi o que relatou o empresário Sergio Hoefling, consultor de negócios da Vip Limpeza, associada à Abralimp. “No início era algo totalmente desconhecido, que gerava incertezas. Mas logo entendemos que nossa área seria fundamental para contribuir com a eliminação ou diminuição de contágios através de contato com superfícies”.

Para ele, mesmo com clientes tendo que fechar temporariamente as portas foi possível vender a ideia de que a higienização dos ambientes deveria continuar. “Então muitos decidiram aumentar a frequência da limpeza, o que refletiu em um pequeno aumento de faturamento”, relembra.

Hoefling conta que outra demanda que ganhou notoriedade foi a desinfecção. “O procedimento existe há muito tempo, mas pouco se via mencionar a respeito. As empresas que se preparam para realizá-lo também tiveram aumento em seus faturamentos. No inicio fomos resistentes em oferecê-lo, mas entendemos que seria uma omissão frente ao que o mundo estava passando”, enfatiza.

Além disso, ele aponta que muitos clientes tiveram problemas para se manter devido à crise financeira. “Isso fez com que negociassem prazos de pagamentos e o resultado foi o efeito cascata”. Porém, nem tudo é negativo para a empresa. “Nos últimos 12 meses o crescimento foi de 8%. Frente a tudo o que temos visto consideramos um ótimo resultado”, comemora.

Juliana lembra que a pandemia resultou no fechamento de atividades – total ou parcialmente; no aumento de preços com fornecedores; na falta de conhecimento do público consumidor; na reserva financeira ou ainda na falta de domínio do mundo digital. “Mas a gravidade depende muito do segmento e de como o empresário estava preparado”, aponta.

Ela segue orientando que é fundamental um negócio existir se houve uma identificação de demanda no mercado que o empresário irá atender. “E essa necessidade deverá ser estudada, se é de curto ou longo prazo”, diz.

“Um exemplo simples: nas unidades do Sebrae no início da pandemia em 2020 havia alta demanda de pessoas em busca de informações sobre abertura de negócio de vendas de produtos de limpeza e álcool em gel. E qual era o motivo? Elas enxergavam uma “oportunidade”, mas não percebiam que era só o tempo de a indústria adequar sua produção para a oferta ser restabelecida. Ou seja, era realmente uma boa oportunidade? Será que pensar em limpeza profissional é um negócio da “moda”? Acredito que não!”

Mas ela reforça que para qualquer setor – inclusive o de limpeza profissional – é importante estar atento à intenção dos consumidores. ”E o encaixe de soluções dessas demandas é a chave! É claro que as áreas da administração devem ser alinhadas: o comercial, a entrega técnica, a divulgação online e offline, além da gestão financeira – imprescindível para o equilíbrio da empresa”.

Rompendo barreiras

José Eduardo Pirré Filho, co-fundador da rede Maria Brasileira.

É por isso que a crise sanitária sem precedentes que se instalou em todo o mundo não foi a única barreira para os empreendedores de limpeza profissional. Pirré, por exemplo, relembra que desde que sua rede foi fundada houve a busca pela profissionalização da limpeza residencial e a mudança de cultura do consumidor final.

“Os clientes estavam acostumados a contratar um profissional informal que não apresentava padrões para o atendimento. Em contrapartida, quem estava acostumado a atender clientes residenciais não entendia que também é profissional de limpeza. Tudo isso foi um grande desafio”, conta.

Já Hoefling entende que o setor ainda precisa romper barreiras – principalmente as que se referem à concorrência. “Muitas empresas ainda vêem seus pares como concorrentes, retendo para si o conhecimento. Quando iniciamos em 2010, a principal dificuldade foi encontrar quem pudesse nos dar algumas dicas”.

Outra situação apontada pelo entrevistado é a falta de referências. “Uma vez que vendemos serviços e para agregarmos valor é necessário contar com depoimentos dos clientes”.

Na visão de Pirré o setor conta com grandes empresas que detém forte participação no mercado. “Mas como a pandemia tem impulsionado uma nova percepção sobre a limpeza profissional, o investimento em inovação constante para oferecer os melhores procedimentos é essencial para o sucesso”.

“A percepção dos clientes perante o serviço de limpeza passa pela valorização e entendimento de sua importância. Como conseqüência, o mercado continuará aquecido. No entanto, tanto as exigências como as expectativas dos clientes também mudaram, o que levará as empresas investir cada vez mais na jornada do cliente e em novas tecnologias”, acrescenta o executivo.

B2B X B2C

Sergio Hoefling, consultor de negócios da Vip Limpeza.

O perfil da clientela é outro fator determinante para as empresas do setor. Hoefling, por exemplo, conta que gosta de dividir a limpeza em duas partes: B2B (do inglês business to business, para o mercado corporativo) e B2C (business to consumer, ou seja, para o cliente final).

“No B2B os gestores visualizam com mais clareza que somos profissionais considerando questões burocráticas como NF’s, KPI’s, check list, documentações, entre outros. Por isso consideramos esforços nesse nicho, inclusive pela seriedade com a qual são conduzidas as contratações de terceiros”.

Mas, por outro lado, ele alega que os clientes finais ainda enxergam as equipes profissionais como ‘tiazinha da limpeza’. “Quase não existe critério para a contratação desses serviços e muitos consideram apenas o preço. Por isso, enquanto empresa fica difícil cumprir todos os compromissos fiscais e ainda concorrer com autônomos – formais ou informais”.

A conclusão tirada pelo empresário é que para empreender no setor é importante se posicionar como profissional. “Principalmente no B2B, o que facilita ganhar escalabilidade”, arremata.

Mão de obra

Parte importante no processo, a mão de obra precisa ser qualificada. Em uma nova empresa, isso se torna condição sine qua non. “Isso é fundamental para o sucesso das empresas. E a melhor maneira de trabalhar a retenção de colaboradores é proporcionar a oportunidade de aprendizado e reconhecimento de suas atividades – algo ainda visto como um ponto de evolução a ser trabalhado”, observa Pirré.

“A mão de obra está 100% atrelada ao sucesso das empresas de limpeza profissional. Alcança esse objetivo aquelas que conseguem ter gestão de pessoas”, reforça Hoefling, que conclui: “enquanto estivermos nos capacitando cada vez mais para entregar soluções aos nossos clientes, o mercado crescerá exponencialmente”.

O consultor relata que auxiliou muitas empresas na gestão do capital humano nos últimos dois anos com ações simples. “Primeiramente definir o que a minha empresa quer? Como ela alcançará os resultados? Quais os tipos de pessoas podem me ajudar? Em resumo: o famoso tripé da identidade – missão, visão e valores”, ensina. De acordo com ele, ao organizar isso fica muito mais fácil buscar mão de obra que esteja alinhada aos propósitos.

Outra iniciativa é criar um código de cultura dentro da organização. “A famosa cartilha de regras. A partir disso consigo cobrar resultados e principalmente, demitir com rapidez, pois aqueles que são conhecedores das regras e começam a desvirtuar do caminho estão dando um sinal de que não querem fazer parte do projeto”, diz ele acrescentando que, ao utilizar tal estratégia, fica mais fácil conduzir a gestão em harmonia e alcançar bons resultados.

Perspectivas

Ao ser perguntado sobre os desafios para quem quer empreender na área de limpeza profissional, Hoefling recorda da sua experiência em 2018. Naquele ano ele criou um canal no YouTube voltado ao público que deseja ingressar no segmento. “De início não imaginei à proporção que tomaria. Atualmente, já são mais de 20 mil inscritos na plataforma e quase sete mil no Instagram”.

Foi justamente ao interagir com essa audiência que ele teve a chance de entender melhor as dores de quem quer ser um profissional da limpeza. Recentemente, ele fez uma pesquisa e constatou que 70% dos interessados na área têm medo de iniciar uma empresa por conta da mão de obra.

Em segundo lugar, ele apurou que a falta de conhecimento na área comercial é um entrave. “Muitos pensam que ser um bom vendedor será suficiente para fechar vendas. Sim. É importante ter habilidade comercial, porém é fundamental entender de legislação, convenções coletivas e até direito do trabalho, já que durante as visitas aos clientes somos bombardeados por perguntas”. Para concluir, ele diz: “a honestidade e a ética também têm de fazer parte de um amplo rol de atributos”.

Já Pirré indica seu ponto de vista: “quem deseja iniciar no mercado precisa criar a sua estratégia focada na experiência do seu cliente e também na valorização dos seus profissionais”, revela, para acrescentar: “as empresas que apresentarem o melhor desenvolvimento nessas duas frentes conseguirão atingir importante posicionamento de mercado no longo prazo”.

Juliana comenta: “nunca foi tão importante atestar segurança sanitária para muitas empresas e até o cliente final, pois a pessoa comum está preocupada com a higienização desde seu veículo, suas roupas e seus espaços. Muitos empresários perceberam essa demanda do mercado e se adaptaram para atender as novas demandas.” Mas para ela não foi a totalidade do setor. “É preciso atenção sempre com as demandas da sociedade e inovações que podem ser ofertadas”.

Ainda de acordo com a pesquisa do instituto Euromonitor, segurança e saúde nortearão o comportamento dos consumidores daqui para frente. Em todos os segmentos as empresas devem desenvolver iniciativas de higiene para lidar com a crescente preocupação.

“Ou seja, esse novo conceito de obsessão por segurança que inclui a digital e sanitária mostra um amplo caminho de oportunidades para empresas do setor que estiverem atentas e agirem.”, revela a consultora.

Dicas preciosas

 Mas afinal, como obter sucesso então?

Juliana dá algumas dicas preciosas: “atenção a sua gestão por completo. Seja sensível ao comportamento do consumidor, reforço sempre! A pandemia veio mostrar que a empresa nunca está segura o bastante.” Para ela, esses pontos ajudam a ter flexibilidade e estar atento às flutuações para se antecipar em ações que atendam as necessidades do cliente para fidelizá-lo.

Ela segue reforçando que os desafios são diários. “Mas posso citar que a falta de organização de tempo e o desequilíbrio entre a gestão da empresa e suas áreas, o operacional técnico, a perda de foco no cliente e falta de atenção às inovações do mercado são os fatores críticos para empreender.”

Além disso, disposição e posicionamento ativo são fundamentais. “Não estamos mais na era de abrir um negócio e só pensar nele internamente, não cabe mais a postura reativa: se aparecer cliente eu atendo, senão eu fico aqui…”.

Ela segue acrescentando: “gostar de aprender e ser flexível para entender que o mundo está mais rápido e sempre em transformação significa que a empresa terá de crescer em modo de constante adaptação e inovação”.

“Mas principalmente: goste de pessoas! Goste muito. Estude-as: o comportamento, as preferências, as jornadas, os sentimentos e as necessidades. Coloque-as como foco central de sua empresa, da equipe de colaboradores aos clientes. As ações derivadas disso determinarão o êxito das empresas do futuro.”, finaliza.

 

 

 

Fonte: ABRALIMP.

Foto/Divulgação: ABRALIMP.