A crise da Covid-19 teve um enorme impacto nos mais diversos setores da economia, trazendo desequilíbrios para toda a cadeia logística global. Isto causou desde a carência de importantes matérias-primas até a escassez de contêineres ou a falta de espaço nos navios de carga.

Segundo uma pesquisa realizada pelo Institute of Supplier Management (mais antiga associação de gerenciamento de suprimentos do mundo), 95% dos entrevistados afirmaram que suas cadeias de abastecimento tinham sido ou seriam afetadas pela pandemia. Soma-se a isso o fato de que cerca de 80% das mercadorias consumidas no mundo são transportadas por via marítima, segundo estimativa da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento.

Para entender a situação mais a fundo, basta olhar os números. Uma reportagem recente da BBC revelou que, antes da pandemia, o custo de envio de um contêiner entre Xangai e a América do Sul era de cerca de US$ 2.000 (R$ 10 mil). Hoje, segundo especialistas do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o mesmo envio já ultrapassa os US $ 7 mil (R$ 36 mil).

Mas, como o mercado global de cargas, navios e contêineres afeta também a Limpeza Profissional? Para entender este cenário – e o que esperar dele para o futuro – a revista HigiPlus contatou o Centro Nacional de Navegação Transatlântica (Centronave), principal entidade que congrega as 19 maiores empresas de navegação de longo curso em operação no Brasil (responsáveis pelo transporte de 97% do comércio exterior brasileiro em contêineres) e ouviu também representantes do segmento de Máquinas de Limpeza, o mais afetado com a crise logística global. Saiba o que eles dizem:

Panorama e impactos

Primeiramente, é preciso lembrar que, após os efeitos do lockdown, a recuperação econômica ocorrida desde o fim de 2020 nos EUA, Europa e Ásia vem sendo um dos principais fatores a colocar pressão sobre a movimentação global de cargas.

“Quando há altos e baixos repentinos de demanda, seja para importação ou exportação, a oferta é diretamente afetada, gerando um desbalanceamento nos fluxos logísticos”, explica o diretor Executivo do Centronave, Claudio Loureiro de Souza. “Em contraste com a demanda aquecida, há hoje portos de países desenvolvidos no hemisfério norte que continuam apresentando severos congestionamentos. Já entre os portos chineses, o destaque recente foi Ningbo, paralisado em agosto devido a casos de Covid. Tais congestionamentos, acrescidos de fechamentos parciais ou totais de outros portos, além da crise do fechamento do Canal de Suez, só vêm atrapalhar os esforços para a superação do atual desequilíbrio entre oferta e demanda no transporte marítimo”.

Tal realidade tem sido sentida de forma pungente pelo segmento de Máquinas de Limpeza Profissional, como destaca André Stopiglia, gerente de Vendas da Nilfisk Brasil: “A maior parte das máquinas profissionais de limpeza ofertadas ao mercado brasileiro são importadas ou possuem componentes importados. Sendo assim, uma escassez na cadeia global de fornecimento, somada à demanda muito maior de navios e contêineres, aumentou o custo dos fretes e trouxe transtornos ao processo de importação. Hoje, trazer mercadorias dos EUA, Europa e Ásia se tornou mais caro e demorado, e esse cenário deve permanecer em 2022”.

“Acredito que o principal causador dessa crise foi a desaceleração enorme no início da pandemia, seguida por um pico de consumo”, completa Sacha Haim, diretor de Contas Estratégicas da Alfa Tennant. “A consequência foi a escassez de matérias-primas e um aumento vertiginoso na movimentação de insumos e produtos acabados, causando um quase colapso na logística global. Antes da pandemia, tínhamos disponibilidade imediata para um contêiner. Hoje, esperamos até semanas e, depois, ainda temos que entrar na fila para conseguir lugar no navio. Com tudo isso, o custo de importação subiu de forma desproporcional, com casos em que o aumento foi de até 1000%”.

Para driblar os problemas, as empresas vêm buscando suas próprias soluções internas, a fim de evitar inclusive mais pressões sobre o mercado local. “Dentro dos pontos que conseguimos controlar, nossa empresa procurou se antecipar ao cenário de escassez global e, desde o ano passado, está aumentando sistematicamente o inventário local, para garantir o fornecimento de máquinas e peças ao mercado brasileiro”, aponta André.

“Uma de nossas soluções foi buscar alternativas de matérias-primas e insumos no Brasil”, diz Sacha. “Mesmo que nominalmente mais caras, elas garantam a continuidade na produção dos equipamentos. Outra foi apostar no recondicionamento de máquinas usadas, vendidas com garantia de fábrica. Desta forma, nos tornamos mais sustentáveis, reduzimos o descarte de equipamentos e o custo do produto, e mantemos a roda girando com disponibilidade de máquinas”.

Soluções para hoje; expectativas para o futuro

Mesmo que a maioria dos fatores que alimentam a crise logística global seja externa, os armadores internacionais têm trabalhado de forma contínua para mitigar os efeitos da situação sobre suas operações.

“Os associados do Centronave vêm empregando toda e qualquer capacidade de transporte disponível, adiando a desativação de embarcações antigas ou mesmo executando reparos antieconômicos em contêineres danificados, além de utilizar suas frotas de navios e equipamentos na capacidade máxima, e trabalhar com seus clientes, parceiros e intervenientes nas cadeias logísticas para a rápida rotação e devolução dos contêineres vazios para reutilização”, reforça Claudio. “Apesar de todo esse esforço, no momento, a ociosidade mundial da frota de navios é praticamente nula, cerca de 1,5% (era de 10,6% anteriormente), o que impede o aumento da oferta de espaço”.

Ainda assim, há fatores que devem ajudar no retorno a um equilíbrio gradativo da cadeia logística global. Um deles é o aumento dos voos internacionais, permitindo mais tráfego de cargas via transporte aéreo. Outro é a esperada renovação do parque mundial de contêineres e seu aumento de capacidade para os próximos anos.

“Acreditamos que uma gradativa normalização da demanda e das operações da cadeia logística pós-pandemia se dará a partir do segundo semestre de 2022, associada à entrada de nova capacidade de transporte (novos navios porta-contêineres) em 2023. Será possível o progressivo retorno à normalidade, ainda, na medida em que ocorram investimentos em infraestrutura portuária, permitindo a chegada de navios maiores nos tráfegos que servem ao Brasil”, finaliza Claudio.

 

 

 

Fonte: ABRALIMP.

Foto/ Divulgação: ABRALIMP.