Segundo pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a dificuldade para obter insumos e matérias-primas locais já atinge 73% da indústria brasileira. Entre as empresas que usam insumos importados, 65% também relatam dificuldade, mesmo quando dispostas a pagar mais caro.

Trata-se de mais uma das consequências da pandemia. Com a valorização da moeda americana, diversas matérias-primas ficaram ainda mais caras, e outras desapareceram do mercado, fazendo com que empresários dos mais diversos setores relatem falta de aço, cobre, resinas plásticas, químicos, embalagens de papelão, plástico e vidro, entre inúmeros outros itens.

A pesquisa da CNI também aponta o setor de Limpeza entre os mais afetados na tentativa de obter matérias-primas e insumos, algo sentido na prática pelos players do segmento, como aponta o Country manager da Tersano/TDE Group, Sérgio Del Papa Jr. “Tivemos atrasos de entregas no começo da pandemia. Além do aumento do dólar, percebemos também um acréscimo no valor do frete e atraso no agendamento das datas de saída, já que utilizamos o modal aéreo pelo prazo mais curto e frequência de cargas menores que fazemos”.

Repasses nos preços

Um dos grandes impactos da escassez está no preço final dos produtos. A Biochemical viveu isso em um dos itens mais procurados na pandemia: o álcool em gel. Antes da crise sanitária, os valores praticados para a caixa com 10 Litros eram de R$ 76,00. No início da pandemia, o valor chegou a R$ 120,00 devido à falta de insumos como o espessante, que teve ajustes em dólar em um momento de câmbio nas alturas. Hoje, para conseguir manter o produto em linha, a empresa precisa praticar margens muito reduzidas.

“Como somos uma empresa de pequeno porte, o preço se torna a principal dificuldade, uma vez que não temos volume de compra para conseguir melhores condições comerciais junto aos fabricantes”, apontam Thiago Leite de Alcântara, gerente de Compras e Paulo Eduardo Leite de Souza, gerente de Vendas. “Tivemos e estamos tendo grandes dificuldades em repassar todos os reajustes que sofremos ao longo desses últimos meses. Por mais de uma vez, repassamos índices que vão de 5% a 100% em toda a linha. E, mesmo assim, uma boa parte foi absorvida pela empresa, diminuindo ainda mais as margens de lucro”.

O fator “logística”

 Os segmentos de Máquinas e de Equipamentos de Limpeza Profissional também vêm se reinventando para driblar não só a escassez ou os custos, mas a dificuldade na importação de material, já que o sistema logístico do mundo inteiro foi impactado pela insuficiência de voos e containers.

“Vivemos uma grande falta de metais em geral, bem como de derivados de plástico. Alguns de nossos fornecedores, por não conseguirem matéria-prima em quantidade suficiente para todos os clientes, chegaram a atrasar a entrega de componentes em mais de oito meses. Houve também aumentos de preço estratosféricos, alguns na ordem de 100%, e vários sem qualquer possibilidade de negociação, já que é ‘pegar ou largar’”, enumera Sacha Haim, diretor da Alfa Tennant. “Além de tudo isso, no caso de produtos que importamos dos EUA, Europa e China, há atrasos por falta de contêiner e, quando finalmente conseguimos um, ainda precisamos entrar na fila de embarque nos navios, que estão lotados e sem vagas”.

Sérgio Fonseca Filho, da área de Business Development da Tron Soluções Tecnológicas, corrobora a queixa. “Nós, fabricantes de Equipamentos e Dosadores, estamos sendo diretamente afetados pela falta de insumos, especialmente plásticos e componentes eletrônicos. Desde o início da pandemia, temos vivenciado o aumento do câmbio em mais de 25% e a dificuldade de transporte (em especial, na importação de matéria-prima), o que não só nos obriga a repassar o aumento aos clientes, como dificulta o planejamento de todo o nosso processo produtivo”.

Soluções para contornar a crise

 Num cenário tão instável, o que fazer para manter a competitividade? Os gestores dão, cada um, sua própria receita: “Estamos atrás de alternativas de matérias-primas que permitam valores finais às formulações que nos posicionem de forma minimamente competitiva, assim como buscamos incessantemente por novas embalagens, com o objetivo de reduzir ao máximo a necessidade de reajustes de preços, além de multiplicarmos esforços para ampliar o portfólio de distribuidores em regiões ainda inexploradas”, apontam Thiago e Paulo, da Biochemical.

“No nosso caso, estamos trabalhando em diversas fontes de inovação, desenvolvendo tecnologias, credenciando novos fornecedores nacionais para reduzir o impacto do câmbio e mantendo o foco na relação com nossos clientes, para entender cada vez mais as necessidades na utilização de nossos produtos”, diz Sérgio, da Tron.

“Procuramos manter os estoques com níveis acima da margem de segurança e fazer acordos melhores ou garantir subsídios no momento da compra”, completa Sérgio, da Tersano.

“Temos investido no recondicionamento de máquinas. Desta forma, conseguimos ter opções à pronta entrega, além de reduzir custos com qualidade e garantia de fábrica”, finaliza Sacha, da Alfa Tennant.

Toda a sociedade está atenta à gigantesca crise sanitária pela qual estamos passando. A forma de consumir está sendo modificada e, daqui para frente, a tendência é por uma racionalidade muito maior, seja no uso da energia, da água ou na aquisição de produtos e serviços. Embora capitanear o barco em momentos de crise não seja uma experiência agradável, é impossível negar o quanto atravessar a tempestade traz de aprendizados. E se algo de positivo ficará dessa experiência é que as empresas, cada vez mais, terão de entender em profundidade as necessidades de seus clientes e aprender a se adaptar às intempéries do mercado – sejam elas a escassez de matéria-prima e insumos, a alta de preços ou qualquer outro fator que impacte sua produtividade. Sua empresa está preparada?

 

 

Fonte: ABRALIMP.

Foto/Divulgação: ABRALIMP.