Fundamental para preservação e conservação

Somente na cidade de São Paulo, existem dezenas de monumentos de valor histórico e cultural incalculáveis. Considerando o tamanho do Brasil e demais cidades, essa conta aumenta exponencialmente.

Fundamentais para perpetuar a cultura e difusão de conhecimento às gerações, tais instalações atravessam o tempo e seguem exercendo a importante tarefa de transmitir seus legados às novas gerações. Mas, por trás do fator histórico, há o cuidado e manutenção para que as instalações sejam mantidas ao longo do tempo. E uma das ferramentas é a correta limpeza.

Segundo a Coordenação Geral de Conservação (CGCO) do Departamento de Patrimônio Material e Fiscalização (Depam) do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), a higienização é importante, pois a interação das sujidades (mesmo as superficiais) com a matéria que compõe o patrimônio histórico e cultural pode trazer consequências danosas aos bens, por meio de reações químicas. Além disso, podem comprometer os valores estéticos presentes no bem.

Para a FACOP (Fundação do Asseio e Conservação, Serviços Especializados e Facilities), as edificações históricas e culturais demandam uma atenção a mais no que se refere a sua simbologia e significado para a localidade em que está inserida, bem como a cultura que representa.

Ainda segundo a entidade, o profissional de asseio e conservação que atua diretamente nestes locais deve ser sensibilizado e conscientizado sobre a importância histórica, de modo a ter consciência sobre sua ação e valorizar ainda mais o trabalho realizado.

Limpeza auxilia na preservação

Maria Letizia Marchese, diretora pedagógica da FACOP.

Maria Letizia Marchese (diretora pedagógica) e Mario Guedes (coordenador de cursos de limpeza), ambos integrantes do staff da fundação, lembram que a higienização engloba processos de limpeza e desinfecção de superfícies.

“A limpeza, quando bem executada (com equipamentos, materiais, produtos e procedimentos), auxilia na preservação e manutenção das superfícies. A desinfecção, por se tratar do processo de eliminação de vírus, fungos e bactérias, auxilia na preservação, não só do ambiente, mas também na diminuição da possibilidade de possíveis danos causados por estes agentes na estrutura ou acervo destes locais”, explicam os especialistas.

Para eles, é fundamental que os profissionais estejam preparados para atuar em áreas específicas, que retratam a história, sensibilidade, criatividade. “Receber a informação, é estar preparado para atuar de forma profissional, o que inclui o conhecimento e a sensibilidade. Além disso, é importante que o profissional esteja ambientado com as obras, assim como também seja orientado para alguma especificidade”, acrescentam.

Guilherme Salla, diretor da Maxi Service, é outro que enfatiza a importância dos cuidados. “Limpeza é sinônimo de saúde e é vital para manter e conservar qualquer ambiente. Quando falamos de edificações históricas e culturais, isto impacta diretamente nos visitantes, nas exposições e nos materiais dentro destes locais”, enfatiza. Para tanto, o consenso é de que haja sempre orientação e acompanhamento de especialistas para a realização dos procedimentos dentro dos espaços.

Capacitação técnica

Mario Guedes, coordenador de cursos de limpeza da FACOP.

“A escolha do produto adequado, de acordo com as características das superfícies e sujidades encontradas, materiais e equipamentos que se adaptem ao trabalho em meio a possíveis peças que guardam a história, sem a possibilidade de danificá-las, técnicas de higienização de ambientes e postura profissional colaboram com a manutenção de superfícies”, esclarecem os especialistas da FACOP.

O fato é que, assim como em segmentos específicos como o hospitalar, por exemplo, a mão de obra que atua em áreas culturais deve receber capacitação apropriada que engloba, além das técnicas de limpeza e protocolos, introdução à arte e cultura.

Cássia Almeida, superintendente executiva da fundação, conta que registros históricos mostram perdas de obras e até de edificações pela ausência ou realização da limpeza de forma inadequada. Daí a importância do tema, que, inclusive, consta em nova série de cursos que será lançada em breve pela FACOP.

“Estamos preparando conteúdo que será disponibilizado junto ao lançamento do Museu da Limpeza”, revela Cássia. “Acreditamos que o profissional que é envolvido como parte do processo é mais confiante, seguro e autônomo para desempenhar seu papel”, enfatiza.

Planejamento

Para a CGCO do IPHAN, todo procedimento – incluindo limpeza e manutenção – realizado em locais históricos deve ser planejado e realizado sob orientação de um especialista. No caso um conservador ou restaurador.

A orientação dada pelo instituto é que, antes da limpeza, seja realizado um estudo minucioso dos componentes materiais do elemento a ser tratado, seu comportamento e, mais importante: eventuais reações a produtos e técnicas a serem empregadas no procedimento. Além disso, recomenda-se a realização prévia de testes.

Em termos práticos, para executar os processos, o primordial é sempre alinhar a atividade com o mantenedor do local, de modo a atender as particularidades e diferentes materiais que estão expostos, como conta Salla.

“O principal cuidado é a identificação dos materiais e superfícies, isso impacta diretamente no tipo de processo, produto e tempo de ação. Alguns itens precisam de cuidado maior. Por isso, é muito importante consultar previamente”, reforça o executivo.

Letizia e Guedes alertam que alguns locais não podem receber determinados produtos ou umidade, por exemplo, pois podem ocorrer danos de natureza química, física ou biológica.

“É importante que os profissionais de limpeza estejam em consonância com os curadores e responsáveis pelo local, obra ou acervo para compreenderem as características gerais e a necessidade de ações de limpeza.

Dessa maneira, é possível adequar os processos à realidade local, muito embora, a limpeza desses ambientes não ocorra diretamente sobre as peças, e sim sobre a superfície. Mas, de forma geral, ela contribui diretamente para a longevidade do acervo”, atestam.

Já para os especialistas do CGCO, qualquer procedimento de conservação exige capacitação técnica, pois apenas o responsável profissional pode ter a medida exata do que pode ser feito e os limites impostos pelas características dos materiais.

Daí o alerta: mesmo quando usada em baixas concentrações, a aplicação inadequada de produtos químicos pode desencadear efeitos noviços, seja por meio do contato direto ou por meio da dissipação de vapores que podem ameaçar a integridade de diversos materiais como metais, substâncias orgânicas e pigmentos, entre outros.

Compreensão do contexto

Cássia Almeida, Superintendente Executiva da FACOP.

Os profissionais da FACOP relatam que as edificações históricas, em si, também dispõem de inúmeras diferenças e adversidades trazidas pela ação do tempo. Tais atributos podem impactar direta ou indiretamente na execução da limpeza.

Por isto, é fundamental que os agentes de limpeza estejam capacitados para identificar as possíveis dificuldades e elencar métodos e ferramentas necessárias para a execução da tarefa de forma adequada.

Isso quer dizer que a capacitação fornece ao profissional pensamento crítico e ação autônoma, sabendo o quê e o porquê fazer nas diversas situações que a realização da higiene de ambientes apresenta”, atestam Letizia e Guedes, que acrescentam: “o uso inadequado de produtos ou técnicas pode levar a danos irreversíveis, como, por exemplo, o stress cracking (em tradução literal, fenômeno de fissura)”.

“A preparação e planejamento são fundamentais. Compreender o contexto em que será empregada a limpeza e sua finalidade evitam problemas futuros. Para estes profissionais, deve haver uma instrumentalização junto aos responsáveis para encontrar saídas possíveis de forma a garantir um local higienizado e a história preservada”, completam.

Acompanhamento por especialistas

Guilherme Salla, diretor da Maxi Service.

Para os técnicos do IPHAN, ter orientação e acompanhamento de um especialista é de suma importância para ambientes históricos. Ainda segundo eles, a conservação preventiva é um campo específico do conhecimento e, para tal, segue recomendações técnicas e científicas para edificações, acervos móveis e integrados à arquitetura de modo a não causar degradações – algumas irreversíveis.

Por isso, é preciso compreender cada material e a técnica que compõem os artefatos, bem como suas peculiaridades e comportamentos frente à ação de produtos químicos e apenas técnicos devidamente habilitados podem interferir com segurança.

“É por isso que oferecemos treinamento para nossas equipes especializadas em limpeza, para que possam identificar as superfícies e materiais. Além disso, o acompanhamento de supervisão especializada assegura o processo”, conta Salla.

O executivo aproveita ainda para compartilhar uma dica importante: “sempre consultar o fabricante dos produtos utilizados nos procedimentos e, em conjunto ao mantenedor do espaço, definir o melhor material a ser utilizado. Além disso, se possível solicitar o acompanhamento de equipe técnica do fabricante dos químicos”.

Apesar de geralmente os itens de maior valor histórico serem mantidos sob tutela da curadoria, e a responsabilidade da equipe de limpeza recair apenas sobre áreas comuns e, eventualmente protetores e vidros, a estratégia evita danos futuros.

Atenção ao sistema de ar-condicionado

Mas outro item no check list da higienização desses locais também deve ser observado. Trata-se do sistema de ar-condicionado. E, para tanto, faz se necessária a atuação de equipe especializada.

“A manutenção periódica de filtros de ar, calibração e outros pontos sensíveis nestes aparelhos é de suma importância. Alterações, mesmo que pequenas, na temperatura e umidade podem danificar peças do acervo ou propiciar o desenvolvimento de fungos e a reprodução de bactérias nocivas às peças”, orientam Letizia e Guedes.

Portanto, investir na padronização de procedimentos e manutenção adequada destes equipamentos é fundamental. Os profissionais chamam a atenção ainda para a gestão de facilities, como por exemplo, a manutenção periódica no sistema de combate a incêndio, haja vista as perdas inestimáveis para a ciência e para a sociedade como a de coleções biológicas e audiovisuais, como ocorrido no Museu Nacional (RJ) e Cinemateca (SP).

POP

É de suma importância que haja um POP: Procedimento Operacional Padronizado construído coletivamente com curador, equipe de limpeza e demais responsáveis envolvidos na instituição”, alertam Letizia e Guedes.

Nele, as boas práticas de limpeza e conservação devem estar descritas, de maneira que as ações e procedimentos sejam empregados da mesma forma e cuidado por todos da equipe. “Um erro muito comum é acreditar que somente a equipe de limpeza é responsável por ela”, enfatizam.

Salla também destaca que é importante sempre procurar pelo órgão responsável pelo patrimônio cultural local. “Eles possuem informações precisas de como o processo pode ser feito, as áreas sensíveis e eventualmente frágeis. A partir daí é avaliado em conjunto com o órgão e empresa prestadora de serviço se vale à pena fazer a limpeza ou buscar pela restauração do patrimônio”.

O alerta vem do fato de que nem sempre as edificações históricas possuem cuidados constantes. “Com isso, fica difícil reverter a situação apenas com a limpeza, sendo necessário investimento para uma restauração detalhada”, diz Salla.

Rotina de cuidados

Portanto, de acordo com observação do IPHAN, a limpeza é uma ação de conservação e, para tanto, deve ser implantada como parte da rotina de cuidados com o patrimônio edificado, móvel ou integrado à arquitetura.

Letízia e Guedes arrematam: “a preservação das edificações se dará por meio da limpeza e do serviço de conservação e manutenção. Não há meios de conservar um ambiente que não recebe a ação da limpeza”.

Por isso, ela deve ter frequência correta, aplicação de práticas e técnicas adequadas, produtos e equipamentos de qualidade e, sobretudo, ação humana consciente e com vistas a bons resultados. “Portanto, espera-se postura profissional e voltada não somente à limpeza, à conservação do ambiente, mas também na manutenção da saúde dos usuários”.

 

 

Fonte: ABRALIMP.

Foto/ Divulgação: ABRALIMP.