Conheça os principais desafios no combate às infecções hospitalares

É fato que hoje, mais de um ano após o início da pandemia, todos entendem o papel da limpeza para promover a saúde. Afinal, descobrimos na prática o estrago que inimigos invisíveis podem causar.

Mas é preciso lembrar que o novo coronavírus – embora tenha alta transmissibilidade – nem de longe está entre os micro-organismos mais perigosos, em especial em ambientes hospitalares. Primeiramente, porque o vírus não é um ser vivo (e sim uma partícula inerte), logo, não tem a capacidade de se multiplicar sozinho no ambiente. Segundo, porque trata-se de uma partícula envelopada, ou seja, protegida por uma camada de gordura, e essa camada pode ser facilmente destruída por desinfetantes ou mesmo com água e sabão.

O grande perigo mora mesmo nos micro-organismos multirresistentes, mais frequentemente encontrados em centros cirúrgicos e Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), e que representam o grande desafio quando o assunto é infecção hospitalar.

O que é a multirresistência?

Organismos multirresistentes são aqueles que adquirem resistência a diferentes classes de antimicrobianos. São considerados os principais causadores das infecções hospitalares devido à sua rápida transmissibilidade e ao quão difíceis são de eliminar.

Um exemplo é o Enterococcus faecium, uma bactéria gram-positiva que pode existir no trato gastrointestinal, mas que, em sua forma patogênica, pode causar meningite ou inflamações no coração. Outro é a Klebsiella pneumoniae, um bacilo que, embora possa ser encontrado na boca, pele e intestinos, pode causar alterações destrutivas nos pulmões humanos, se aspirado. Há ainda a Candida auris, uma espécie de fungo que está entre os poucos deste gênero a causar candidíase em humanos. Ela é frequentemente adquirida em hospitais por pacientes com o sistema imunológico enfraquecido e chama a atenção por sua resistência múltipla aos medicamentos. Por fim, destaca-se a Clostridium difficile, uma bactéria associada a inflamações do cólon e formação de membranas na mucosa intestinal, que põe em risco a vida do paciente infectado, e que vem se destacando nos últimos tempos como um patógeno humano preocupante. Só em 2017, nos Estados Unidos, o Centro de Controle de Doenças (CDC) registrou 223.900 casos em pacientes hospitalizados e 12.800 mortes.

“A multirresistência tem várias causas, algumas relativas aos próprios micro-organismos (adaptação e evolução das espécies), outras relacionadas ao uso excessivo e prolongado antibióticos (seja na medicina ou mesmo na pecuária e criações em geral), a ambientes onde se concentram muitos pacientes críticos, ou ainda devido a procedimentos médicos invasivos, que são mais propícios a infecções”, enumera a infectologista Rebecca Saad.

No Brasil, há também as diferentes realidades entre hospitais, o que torna ainda mais complexo o desafio do combate às infecções. Muitos locais sofrem por não ter verba suficiente para manter uma equipe de higienização de qualidade, ou sequer contar com produtos e equipamentos adequados. Já nos hospitais financeiramente estruturados, o desafio é fazer com que as equipes cumpram os protocolos e rotinas, o que demanda treinamento, monitoramento e motivação.

“Os microrganismos multirresistentes sempre foram uma grande preocupação na área da saúde, seja porque os tratamentos são caros, seja porque em muitos casos o paciente vai a óbito pela dificuldade da cura”, alerta Fernanda Cerri, da Câmara de Químicos da Abralimp. “Com a pandemia, pouco se falou sobre o assunto porque as atenções se voltaram a descobrir mais sobre o vírus. Mas, no caso da Covid, a principal diferença é que, como o vírus não é vivo, não se multiplica na superfície e com o tempo se torna inativo. Já as bactérias e fungos são vivos, se proliferam rapidamente e, no caso da Clostridium difficile, por exemplo, podem ficar até cinco meses sobrevivendo na superfície”

Limpeza para prevenção a infecções

Se o uso indiscriminado de antibióticos é um dos responsáveis pelo surgimento de micro-organismos multirresistentes, outra causa está nos procedimentos e hábitos praticados dentro dos hospitais, como é o caso da higienização das mãos.

“Temos como desafio transformar a prevenção de infecções em algo medular para os colaboradores, o que chamamos de competência inconsciente”, destaca Rebecca. “É preciso criar a cultura de que, para fazer o certo, o indivíduo nem precisa pensar sobre aquilo; faz simplesmente por saber da importância e por ter aquilo como um hábito”.

Além disso, os hospitais devem investir em profissionais competentes em seus controles de infecção, pessoas que entendam a importância de manter os processos corretos. Por fim, o serviço de higiene e Limpeza Profissional também é determinante para garantir um ambiente limpo e seguro, prevenindo infecções cruzadas, surtos e o desenvolvimento da multirresistência em patógenos, impedindo que se perpetuem no ambiente.

“A higienização deve seguir normas rigorosas. O desinfetante deve ter laudo comprovativo de sua ação para aquele procedimento. Os equipamentos devem ser higienizados imediatamente após a utilização, os Procedimentos Operacionais Padronizados (POPs) devem ser seguidos à risca e a equipe de limpeza precisa ser treinada regularmente. Por fim, a lavagem de mãos deve ser tida como fator crucial para evitar a transmissão e contaminação por micro-organismos”, completa Fernanda.

Embora as mutações do coronavírus não alterem o processo de higienização, a pandemia deixará inúmeras marcas nos profissionais que atuam em ambientes de saúde e nas próprias instituições. As demandas de limpeza mudaram, e o olhar das pessoas e das instituições também. Se antes as equipes de limpeza eram praticamente invisíveis, hoje prevenção e segurança são palavras de ordem – e o investimento em equipamentos e produtos vão fazer toda a diferença para tornar processos, ambientes e serviços cada dia mais seguros.

 

 

 

Fonte: ABRALIMP.

Foto/Divulgação: ABRALIMP.