Desigualdade social evidencia situação real das mulheres de baixa renda

Uma pauta tem ganhado especial destaque nos veículos de comunicação nos últimos tempos: a pobreza menstrual. Mas, de fato, o que e quais impactos causados? De acordo com pesquisas divulgadas recentemente, 28% das mulheres de baixa renda estão inseridas no contexto de pobreza menstrual.

Processo natural do ciclo reprodutivo feminino, a menstruação começa na puberdade e segue até por volta dos 50 anos. Durante todo este período, requer das mulheres cuidados básicos como o uso de absorventes higiênicos durante a liberação do fluxo menstrual.

Porém, de acordo com pesquisa “Pobreza Menstrual no Brasil: Desigualdade e Violações de Direitos” lançada este ano pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), no Brasil, mais de 4 milhões de adolescentes e jovens não têm acesso a itens mínimos de cuidados menstruais.

Improviso

E, na falta, há o improviso. É comum fazer uso de produtos não indicados para absorver a menstruação. Itens como miolo de pão, filtro de café, panos, toalhas, papel higiênico, saco plástico e até jornal são as alternativas encontradas por mulheres para suprir a falta de absorventes.

O mais chocante é que o gasto médio mensal com este tipo de produto é de apenas R$ 21,00. Como consequência, inúmeros problemas de saúde são causados: infecção urinária; alergias, candidíase e infecções por fungos e bactérias.

Dura realidade

Pior são os impactos emocionais: insegurança, constrangimento e vergonha. Tanto que a discussão sobre a saúde e a dignidade menstrual é um dos compromissos do UNFPA (Fundo de População das Nações Unidas) e UNICEF para garantir os direitos de milhares de mulheres.

No Brasil, o projeto de lei 4.968/2019 de autoria da deputada federal Marília Arraes que cria o Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual e transitava na Câmara com a proposta de distribuição gratuita de absorventes femininos para estudantes de baixa renda e pessoas em situação de rua foi vetado pelo presidente da república.

No entanto, a pressão da opinião pública reconduziu o tema ao debate no Congresso Nacional. Os estados do Amazonas, Bahia, Ceará, Pará, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Roraima e São Paulo, além do Distrito Federal já sancionaram leis estaduais para a distribuição gratuita nas redes de ensino.

Na Paraíba, por exemplo, a medida já foi adotada e estendida também aos homens trans que menstruam. São oferecidos, no estado, absorventes (internos/externos descartáveis), coletores menstruais e calcinhas absorventes (reutilizáveis).

Condições mínimas

Para especialistas, por trás da falta de dignidade para quem menstrua está uma triste realidade: a falta de recursos, infraestrutura e conhecimento para a manutenção dos devidos cuidados. Falta de saneamento básico, de banheiros, água encanada e até chuveiros figuram na lista de privações de higiene. Tanto nas residências, quanto nas escolas.

Segundo os dados apurados na pesquisa, a ausência de condições sanitárias mínimas faz com que o Brasil figure na triste lista de países distantes dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

O levantamento analisou dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 15,5 milhões de brasileiras com idades entre 10 e 19 anos por meio da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS 2013), da Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE 2015) e Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2017-2018).

Ainda de acordo com o UNICEF, a falta de condições mínimas como acesso a água encanada, esgoto, papel higiênico e sabão fere os direitos humanos, além de causar estigma e discriminação. Além disso, o acesso à informações sobre menstruação e recursos apropriados como absorventes são imprescindíveis para reverter a situação de pobreza menstrual.

Mais informações em: (www.unicef.org/brazil/relatorios/pobreza-menstrual-no-brasil-desigualdade-e-violacoes-de-direitos)

 

 

Fonte: ABRALIMP.

Foto: Veridiana Scarpelli/SAÚDE é Vital.