Como a reciclagem e a logística reversa podem auxiliar a equacionar essa conta

A pandemia trouxe novos hábitos para os consumidores. Entre eles um ganhou destaque: o de serviço de entrega por aplicativos, além do comércio online, que segundo a ABComm (Associação Brasileira de Comércio Eletrônico) registrou aumento expressivo em 2020 devido à migração para as compras online. Na esteira veio o aumento no consumo de embalagens. Mas a reciclagem acompanhou esse crescimento?

De acordo com a Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais), a coleta seletiva aumentou 30% no Brasil impulsionada pelo isolamento social.

Além disso, a pandemia gerou aumento no uso de materiais hospitalares, como luvas e máscaras, somado ao avanço do comércio eletrônico e delivery que impulsionaram o consumo de plásticos, colocando o Brasil como quarto maior produtor de lixo plástico no mundo, segundo o Atlas do Plástico, lançado pela organização alemã Fundação Heinrich Böll em novembro de 2020.

No país, das 79 milhões de toneladas de resíduos sólidos produzidas por ano, 13,5% são de plástico, de acordo com dados da Selurb (Sindicato Nacional das Empresas de Limpeza Urbana). Ainda não existem pesquisas se o cenário já se estabilizou, todavia, vale mencionar que tanto a Black Friday como o Natal de 2020 foram recordistas de vendas no varejo online.

Mas é fato também que a reciclagem não deu conta de acompanhar esse volume, já que as cooperativas que fazem a coleta do lixo reciclável tiveram as atividades interrompidas durante sete meses na quarentena.

A AMLURB (Autoridade Municipal de Limpeza Urbana) apurou que foram coletadas 85.8 mil toneladas de recicláveis em 2020 – no ano anterior esse volume foi de 72.3 mil toneladas. Ainda segundo a entidade, os resíduos advindos da coleta seletiva aumentaram 22% entre março e novembro de 2020, equivalendo a 11,5 mil toneladas a mais que no mesmo período de 2019.

Na prática

Guilherme Salla, diretor da Maxi Service.

Nesse contexto, certificadoras como a eureciclo atuam para garantir que empresas cumpram com seu papel de responsabilidade ambiental. Através do conceito de compensação e logística reversa remunerando os agentes pelo serviço ambiental de coleta e triagem de materiais.

Mas como as empresas do setor de limpeza profissional entram nesta história?

Na Maxi Service, associada Abralimp sediada em São Paulo, por exemplo, desde 2017 são adotados os processos de logística reversa e economia circular. “Recolhemos todo o material plástico utilizado nas operações de limpeza”, explica o diretor Guilherme Salla. A iniciativa resultou na reciclagem de aproximadamente uma tonelada de plástico somente em 2020. “Desta forma reduzimos muito o impacto em nossas atividades, já que não temos garantia de que nossos clientes realizem a correta tratativa de descarte”, acrescenta.

Na Riccel, outra empresa associada Abralimp especializada na fabricação e comercialização de produtos para limpeza profissional, no mínimo 22% do material gerado anualmente é reciclado. “Colaboramos com o meio ambiente através do estímulo às cooperativas e empresas de reciclagem”, diz Daniel Graciotti Pistori – químico responsável.

A Spartan, também associada Abralimp, que oferece sistemas de limpeza e higiene, também adota práticas sustentáveis desde 2017. “Possuímos todos os certificados de compensação para logística reversa para todo o país”, explica Fernando Casetto, supervisor de processos. Inclusive, a empresa conta com um programa interno de Coleta Seletiva responsável pela reciclagem de mais de 55 toneladas em 2020. Já a logística reversa compensou mais de 100 toneladas no mesmo período. Para tanto são elaboradas rotinas que contribuem ativamente para alcançar melhores resultados ambientais.

Tanto que o volume reciclado corresponde à metade do valor compensado na logística reversa – o que sugere um montante significativo. “Todo esse material contribui para o desenvolvimento de outros mercados e empresas, bem como de funcionários, pois gera operações financeiras e produtivas”, atesta Casetto.

Aderindo à reciclagem

Gabriela Reis, gerente de marketing da eureciclo.

A reciclagem é extremamente importante, porque torna possível que os materiais utilizados retornem para a cadeia produtiva, reutilizando todos os insumos e o potencial econômico que eles ainda oferecem, em vez de retirar mais matéria-prima virgem da natureza.

Desta forma, ao adotar processos de reciclagem a empresa está colocando em prática uma forma inteligente de poupar muitos recursos naturais e reaproveitar materiais que ainda têm potencial para serem reutilizados diversas vezes.

“Não reciclar é, na verdade, um grande desperdício de capital e recursos naturais”, enfatiza Gabriela Reis, gerente de marketing da eureciclo, entidade especialista em compensação ambiental como solução para logística reversa.

Segundo ela é muito importante que as empresas, antes mesmo de realizarem a logística reversa e a reciclagem, tenham conhecimento de qual é o tipo de embalagem que utilizam.

A especialista enfatiza que muitas embalagens não são recicladas no Brasil porque possuem materiais muito complexos, misturados ou que possuem rótulos, colas e cores que dificultam a reciclagem. “Por isso, é necessário fazer um estudo inteligente e consciente do material e do seu design, para que gere o mínimo de resíduos não recicláveis no final”, destaca.

Ao contrário, as embalagens que apresentam boa taxa de reciclabilidade impulsionam a demanda no mercado da reciclagem do país. “Para implantar a logística reversa a empresa interessada pode participar de sistemas de logística reversa coletivos, como no caso da entidade, que atua com o conceito de compensação ambiental.

Logística reversa

Fernando Casetto, supervisor de processos na Spartan.

Por isso a logística reversa de embalagens aliada à tecnologia é uma das ferramentas mais importantes para ajudar a sociedade a evitar uma crise sanitária e ambiental no pós-pandemia.

Tanto que os especialistas do segmento apontam que as companhias deverão repensar os seus tipos de embalagens para diminuição de resíduos e, principalmente, desenvolver embalagens mais recicláveis para se adequar aos programas que fomentam a sustentabilidade.

Gabriela esclarece ainda que a iniciativa é aplicada pelo sistema de compensação. Essa compensação gera certificados que são relativos ao engajamento no programa, já que a entidade tem o modelo de compensação ambiental, que consiste em destinar de forma ambientalmente correta resíduos equivalentes a 22% da massa das embalagens colocadas no mercado.

Para isso, os operadores de coleta e triagem são homologados e, por meio de uma plataforma tecnológica é checada a consistência do processo de forma escalável e segura.

Além disso, também é possível que a empresa realize a logística reversa diretamente com seus consumidores, instituindo um ponto de coleta para que eles entreguem a embalagem após o uso e, assim, seja possível destinar corretamente os materiais para uma central de triagem, que vai direcionar o resíduo para reciclagem.

Outra opção é participar de sistemas coletivos de logística reversa – como no caso da eureciclo. “O objetivo é que a companhia declare a quantidade de embalagens que ela gerou e comercializou em um ano e, dessa forma, pague um valor proporcional (levando em consideração o tipo de material) para que os operadores de reciclagem reciclem uma quantidade equivalente. Isso vai garantir que a mesma massa de resíduos gerada pela empresa será reciclada por uma cooperativa ou um operador de reciclagem”, esclarece.

O sistema criado tem o objetivo de valorizar o trabalho da reciclagem, gerando incentivos ao setor para que ele se desenvolva e, assim, as taxas de reciclagem aumentem no Brasil.

Quando esse setor recebe investimentos, aumenta a sua capacidade e melhora suas condições de trabalho, passando a reciclar cada vez mais. “Essa é uma forma de contribuir com a sustentabilidade do planeta e também valorizar um trabalho extremamente necessário e ainda muito pouco reconhecido.”, pontua Gabriela, que arremata: “a logística reversa vem como uma forma de fortalecer o setor e contribuir para o aumento das taxas de reciclagem”.

Para facilitar a eureciclo oferece em seu site – www.eureciclo.com.br – a possibilidade das empresas ingressarem no sistema de logística reversa e também aderir a um plano e ainda esclarecer dúvidas com especialistas.

Pós-pandemia

Daniel Graciotti Pistori – químico responsável na Riccel.

Na Maxi Service a expectativa é seguir buscando por soluções para minimizar o impacto ambiental em 2021. “Estamos procurando alternativas para a reciclagem de uniformes e outros materiais que ainda não conseguimos fazer reciclagem”.

No caso da Riccel, que participa de pregões eletrônicos onde as cooperativas concorrem para absorver o passivo, também foi sentida a falta de material já reciclado como um todo durante o período. “Mas continuaremos estimulando o mercado das cooperativas receptoras e das empresas de reciclagem para um aumento efetivo na captação e destinação correta”, diz Pistori.

Gabriela Reis enfatiza que é importante que as empresas sigam construindo programas ambientais para otimizar a utilização de recursos naturais para colaborar com a redução na geração de resíduos.

“Um estudo da Harvard Business School mostra que as empresas que buscam resolver problemas socioambientais, além de realizar o seu trabalho, tendem a crescer mais que as outras. Então, podemos concluir que já temos todos os indicativos de que é necessário pensar na sustentabilidade”, finaliza.

 

 

Fonte: ABRALIMP.

Foto/Divulgação: ABRALIMP.