Túneis de desinfecção funcionam ou fazem mal à saúde? Em que produtos confiar para eliminar o coronavírus? Ozônio e raios Ultra Violeta desinfetam ambientes? Qual o real comportamento do vírus e como será o pós pandemia?

O Brasil está entre os primeiros países do mundo em número de infectados, e as necessidades de saúde e limpeza mudaram. Mas, junto com as novidades, também ficamos expostos a falsários, oportunismos e até a informações desencontradas. Num momento em que muitas fake News já são parte da rotina, a Abralimp realizou um webinar para elucidar os Mitos & Verdades ligados à Covid-19.

Para isso, reuniu os especialistas Fernanda Cerri e Adriano Lowenstein, membros da Câmara de Químicos, Dr. Roberto Foccacia, docente e médico Infectologista, e Matheus Corrêa, membro da Câmara de Químicos e Conselheiro da Abralimp, como mediador. Confira:

Como o vírus se comporta e como eliminá-lo?

Estamos vivendo uma epidemia, um novo vírus que passou do morcego ao homem e sobre o qual sabemos pouco. É fato que a história dessa epidemia só poderá ser contada ao final dela. Mas também é fato que, hoje, o Brasil já tem informação suficiente para se proteger de maneira efetiva.

Sabe-se, por exemplo, que o coronavírus tem como característica a alta transmissibilidade, e que se espalha por meio de gotículas exaladas pela fala, tosse ou espirro liberados por um indivíduo infectado. Essas gotículas podem ficar no ar por até três horas e, embora geralmente sejam expelidas a uma distância de dois metros, pode chegar até sete metros de distância do emissor.

O vírus não fica apenas no ar, mas também “cai” e se deposita em superfícies, e o contato com elas e com o nariz, olhos ou boca é o que causa a contaminação. Daí a necessidade da limpeza e higienização constantes (tanto pessoal, quanto do ambiente). No caso da higiene pessoal, ações básicas como lavar as mãos ou usar máscara continuam sendo as armas mais eficazes. “A lavagem das mãos precisa ser longa, limpando efetivamente unhas, dedos e braços, por cerca de quarenta segundos e com bastante sabão, como se a pessoa estivesse se preparando para uma cirurgia. Já no caso das máscaras, estudos comprovam que o uso reduz de 17% para 3% os riscos de contaminação”, explicou o Infectologista, Dr. Roberto Foccacia.

Mas, em relação à limpeza do ambiente, como saber se o produto “x” ou “y” realmente consegue eliminar o vírus? Primeiro, é importante saber que o coronavírus está numa família de vírus envelopados que, na tabela de resistência de micro-organismos, é considerada de resistência baixa. O vírus possui uma camada de gordura que o envolve e os detergentes conseguem facilmente rompê-la durante a lavação. Da mesma forma, os desinfetantes também têm a capacidade de penetrar essa camada e inativar ou destruir o vírus. Conforme explicou o especialista Adriano Lowenstein, em relação a essa tabela, qualquer desinfetante registrado na Anvisa como “desinfetante de uso geral” é testado contra micro-organismos de resistência maior. “Isso significa que os desinfetantes registrados eliminam micro-organismos mais resistentes, então fatalmente vão eliminar o coronavírus. Por isso, é fundamental olhar o rótulo do produto, ver se é registrado, respeitar a concentração indicada pelo fabricante e o tempo de ação sobre determinada superfície”.

É preciso observar, entretanto, que não é possível garantir a durabilidade da ação residual desses produtos. Isso porque o efeito residual é consumido de acordo com a carga microbiológica das próprias mãos dos indivíduos, conforme a superfície for tocada. Por isso, o ideal é investir no aumento das frequências de limpeza e considerar que, por mais que a superfície esteja desinfectada, ao primeiro toque o residual do produto já poderá ter sido consumido, sendo necessária uma nova higienização.

Água e sabão vs. Desinfetante

 Como saber quando é imperativo usar desinfetante, ou quando só água e sabão já são suficientes? A especialista Fernanda Cerri esclareceu essa dúvida:Primeiro, é preciso avaliar a superfície a ser higienizada. Se é uma superfície não-crítica, como é o caso dos pisos, basta apenas água e detergente. E as pessoas confundem muito, acreditando que o piso seja uma área crítica. Mas, mesmo num hospital, é necessário apenas que o piso esteja limpo, sem necessidade do uso de desinfetante”, disse.

O foco deve ser então nas superfícies críticas, tocadas com frequência e que representam real potencial de infecção, em especial nesse momento de pandemia. Nelas, é fundamental usar desinfetante e sempre fazer a limpeza prévia, ou seja: limpar a superfície para retirar a sujeira e só então aplicar o desinfetante. Do contrário, seu princípio ativo será consumido pela sujeira, ao invés de eliminar os micro-organismos.

Por fim, a especialista ressaltou que, de forma geral, os desinfetantes não “esterilizam”. “Temos visto pessoas usando determinados produtos acreditando que promovem a esterilização, quando isso não é verdade. Quando usamos o detergente, a redução da carga microbiológica é de cerca de 80%; com desinfetante, de 90% a 99%; já a eliminação de 100% só ocorre com a esterilização feita com produtos específicos, e tem havido bastante enganos em relação a isso”.

Posso enxaguar o desinfetante? E quando usar o álcool em gel?

Outra dúvida frequente é sobre fazer ou não o enxague dos desinfetantes. O especialista Adriano explicou que, na maioria dos casos, a Anvisa não autoriza o processo de enxague. “Tudo depende de qual o tipo da aplicação. Na indústria alimentícia, por exemplo, a grande maioria das aplicações desses produtos se faz em superfícies que, sim, necessitam de enxague posterior, porque irão entrar em contato com o alimento. Fora disso, na grande maioria dos usos, a recomendação é que não haja o enxague porque o produto continuará agindo.

Já sobre o álcool em gel, a primeira questão a ser lembrada é que ele só deve ser usado quando não for possível a lavagem das mãos. Para superfícies, embora possa ser aplicado, existem outros princípios ativos mais adequados para essa função, como é o caso do quaternário, da biguanida com quaternário ou do peróxido de hidrogênio – vários deles com efeito residual já que, depois de aplicados, a água se evapora e o princípio ativo continua agindo.

“Com relação ao álcool em gel, além do custo muito alto para aplicação em superfícies, o processo de higienização também demanda mais trabalho e tempo”, apontou Fernanda. “Além disso, é fundamental que o álcool seja sempre a 70% para destruir a camada lipídica do vírus”, completou Foccacia. “A menos de 70%, o produto não consegue ser efetivo; a mais de 70%, haverá a evaporação e deixará de ser eficaz”.

Conheça outros Mitos & Verdades

Além do álcool em gel e dos desinfetantes, comprovadamente eficazes contra o coronavírus, em razão da pandemia vêm surgindo diversas novidades no mercado – muitas que prometem soluções quase milagrosas de desinfecção – mas que devem ser encaradas com atenção ou até mesmo ser evitadas. Saiba o que disseram os especialistas:

ATOMIZAÇÃO

Convertido em prática comum durante a pandemia, trata-se de um processo realizado por um profissional que usa um atomizador para pulverizar determinado sanitizante no ambiente. Aqui vale se observar algumas regras. Primeiro, a atomização deve ser tratada apenas como uma “pré-desinfecção” ou como “complemento” ao trabalho normal de limpeza. Ou seja: é preciso limpar, desinfetar as superfícies e só então entrar com o atomizador para atingir as áreas de difícil acesso, ou que eventualmente não foram limpas.

Segundo, é preciso sempre usar um sanitizante adequado, na concentração indicada pelo fabricante, e garantir que o profissional use todos os EPI´s adequados na aplicação, para que o produto não entre em contato com nariz, olhos, mãos, pele etc.). Por fim, é necessário que as micropartículas que saem do atomizador se depositem na superfície e ali permaneçam pelo tempo de contato preconizando na utilização do produto.

OZÔNIO

É um poderoso gás oxidante, utilizado dentro da hotelaria para eliminar mofo e maus odores, sendo muito eficaz nesse processo. Entretanto, não há qualquer comprovação ou registro na Anvisa de produto à base de ozônio para uso desinfetante. Além disso, a EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) não aprova o ozônio para aplicação e eliminação da Covid. Da mesma forma, a Sociedade Brasileira de Infectologia emitiu recentemente uma nota técnica também informando que o ozônio não tem ação contra a Covid.

TAPETES SANITIZANTES

Inspirados no “pedilúvio” (equipamento para desinfecção de calçados usado em frigoríficos e abatedouros), os tapetes sanitizantes têm sido implantados em locais como shoppings e hotéis, no processo de reabertura, com a promessa de desinfetar as solas dos sapatos para que o usuário possa adentrar o ambiente. Embora não haja proibição quanto ao uso, a efetividade desse tipo de tapete pode ser discutível. Primeiramente, porque calçados comuns não estão preparados para serem submetidos a desinfetantes.

Segundo, há inúmeros casos de pessoas que utilizam calçados abertos, como sandálias ou chinelos, o que faria com que a pele do usuário entrasse em contato com o desinfetante. O estabelecimento também precisaria ficar atento à reposição constante do produto, já que a alta rotatividade faz com que seu princípio ativo acabe rapidamente, perdendo a efetividade. Por fim, como já mencionado anteriormente, é impossível manter um piso de shopping, por exemplo, ou da própria casa totalmente desinfetado. E como o piso não é considerado área crítica, o uso de tapetes sanitizantes, em muitos casos, pode acabar sendo meramente decorativo.

DESINFECÇÃO POR RAIOS ULTRA VIOLETA (UV)

É comprovado que o raio UV possui capacidade de desinfecção. É comum encontrá-lo em consultórios dentários ou salões de beleza, por exemplo. Ocorre que o raio UV possui um determinado comprimento de onda e é ele que age sobre os micro-organismos para eliminá-los. Desta forma, para que esse tipo de desinfecção funcione é imperativo que a lâmpada possua o comprimento de onda adequado para um determinado micro-organismo.

Nos EUA, a desinfecção por UV é aplicada na área hospitalar, mas também como um processo adicional à limpeza e desinfecção comuns. Ou seja: é feita toda a limpeza do quarto (ou centro cirúrgico) e, após, é colocado no ambiente um equipamento com luz ultra violeta que agirá a portas fechadas, sendo seu uso encarado como uma segurança adicional, não como desinfecção básica.

De qualquer forma, no caso específico do coronavírus, a OMS não recomenda a aplicação dos raios UV, já que não se sabe qual o tempo necessário para que ele seja eliminado. No Brasil, a Anvisa e demais órgãos reguladores também não têm qualquer aprovação formal sobre a utilização dos raios UV.

TÚNEIS DE DESINFECÇÃO

Também polêmicos, os túneis de desinfecção passaram a ser vistos nos locais mais variados ultimamente, como nas entradas de metrôs de algumas cidades brasileiras. A Anvisa já emitiu uma nota técnica na qual reprova seu uso. E os riscos são muitos. Primeiro, trata-se da aplicação de um produto saneante (registrado na Anvisa para desinfecção de “superfícies”), sobre seres humanos, colocando o saneante em contato com a pele, olhos, mucosas, sem qualquer conhecimento sobre que tipo de problemas esse contato pode vir a causar.

Além dos riscos óbvios, não há qualquer laudo que diga que o procedimento efetivamente funciona, podendo gerar nas pessoas uma falsa sensação de segurança, como se, ao passar pelo túnel, a pessoa acreditasse estar desinfetada e, com isso, deixasse de lavar as mãos.

Há, porém, uma exceção: a nota técnica da Anvisa libera, para hospitais, o uso de túneis para desinfecção de uniformes/fardamento/aventais e de EPIs. Isto porque, embora haja toda uma técnica para desparamentação, há grandes riscos de contaminação quando os profissionais estão retirando uniformes e EPIs.

Quais os legados do pós pandemia?

Vale lembrar que não basta ter os melhores produtos, se os procedimentos não forem aplicados da maneira correta. Segundo estudos realizados nos Estados Unidos, o uso dos protocolos corretos de limpeza ajuda a diminuir o número de superfícies contaminadas por vírus em 62%, pode impactar o absenteísmo escolar em 46% e combater a propagação de vírus, como é o caso do Influenza, em até 80%. “O protocolo só no papel não significa nada. Estamos num momento de extrema responsabilidade com as boas práticas e a disciplina, porque fazemos parte de um setor que também está na linha de frente do combate à doença”, disse o moderador Matheus.

“Aqui vale usar as regras básicas da limpeza”, completou Fernanda. “Limpar do menos para o mais contaminado, de cima para baixo, fazer a higienização em sentido único, manter os funcionários capacitados e usar os EPI´s. E não apenas em hospitais, mas em hotéis, shoppings e todas as demais áreas, para oferecer um ambiente seguro aos nossos clientes”.

“A pandemia chamou a atenção para a limpeza”, disse Adriano. “E teremos que fazer nas demais áreas institucionais o que já existe nos hospitais: ‘Fazer bem feito aquilo que deve ser feito’, seguindo os protocolos de cada setor e tomando cuidado com as superfícies críticas”.

Sobre o futuro e a recorrência de pandemias ou mesmo de outras “ameaças invisíveis”, Dr. Foccacia finalizou com uma recomendação. “Depois dessa epidemia, o mundo vai ser outro. Se descobre praticamente um novo vírus por dia e a probabilidade de outras epidemias sempre vai existir. Não sabemos como vírus vai se adaptar ao ser humano, nem se aqueles que já contraíram a doença terão de fato a imunidade. E, mesmo que haja uma vacina, será que a proteção será permanente? É tudo uma incógnita. Tudo dependerá, na verdade, do comportamento do vírus, e de como o ser humano enfrentará cada situação relacionada a ele”.

 

Confira aqui outros Mitos & Verdades sobre o que funciona contra a Covid-19!

 

 

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Fonte: ABRALIMP – Associação Brasileira do Mercado de Limpeza Profissional.

Foto: Divulgação.